7º Episódio
Por Ruben Gomes Terça, 09 Março 2010 15:17

O mundo desabara, a alma de Maria tombara, o coração da jovem sentira um choque enorme… Lágrimas morriam dos olhos de Maria e deslizavam-lhe pelo rosto. Nesse momento, a menina do mar que fora obrigada a tornar-se na senhora do mar, devido às adversidades da vida, descontrolou-se. Aquele era, muito provavelmente, o segundo maior momento de desespero da jovem. O primeiro ocorrera aquando da morte do seu pai e do seu irmão.
A perda das estribeiras por parte da jovem levou-a a cair de joelhos diante do amado e, soluçando, implorava-lhe que não fosse para a Marinha.
- Não… Não! Não! Não! Fica comigo! Protege-me! Não te lembras de eu te dizer que contigo eu me sentia segura, João?! Tu queres que eu morra um pouco a cada dia que não te vou ter perto de mim? Queres?!
- Tu sabes que a Marinha é o meu sonho! – Explicou o jovem.
- E eu? Eu sou o quê? Um escape à realidade? É isso? Se tu gostasses de mim, se me amasses de verdade, ficarias aqui ao meu lado e proteger-me-ias! Proteger-me-ias!
- E se tu gostasses mesmo de mim, quererias que eu me sentisse realizado! Feliz com a vida!
- Não és feliz ao meu lado?
- Estás a ser egoísta, Maria! Eu amo-te e tu sabes muito bem disso! Mas eu preciso de trabalhar! E o meu trabalho é a Marinha, o meu sonho! Eu sabia que ias ficar triste, mas não fazia ideia de que te ias descontrolar! Não te humilhes mais! Levanta-te, meu amor! – Explicou, calmamente, o jovem, ajudando a amada a levantar-se do chão onde estava ajoelhada.
Depois da conversa comovente entre os dois, Maria sussurrou ao ouvido de João:
- E o mar?
Foi com essas palavras em tom pianíssimo que João se sentiu um pouco culpado por deixar Maria sem um apoio, um porto de abrigo, deixando-a entregue à mercê dela própria… E do mar.
- Desculpa... – Foi a única palavra que João conseguiu proferir. Juntamente com essa palavra saíram as lágrimas de um jovem rapaz que tinha toda a vida pela frente. Mas essa vida ia ser atribulada devido ao seu trabalho e aos problemas de Maria… E ao mar.
João despediu-se de Maria, dando-lhe um beijo na testa. Antes de sair de casa da jovem, Maria interpelou-o:
- Quando vais?
- Amanhã... Desculpa só te ter dito hoje, mas só agora consegui arranjar coragem para o fazer.
A jovem olhou-o nos olhos.
- Eu tenho medo que o mar te leve de mim, tal como aconteceu com o meu pai e o meu irmão.
- Eu prometo que isso não vai acontecer! – Disse João, abraçando Maria em jeito de despedida.
- Só o mar é que sabe se te leva ou não. Por isso, não faças promessas dessas. – Declarou Maria, deixando escorrer algumas lágrimas que eram tão brilhantes e tão puras que se assemelhavam a cristal.
- Não te vens despedir de mim, amanhã?
- Não consigo estar perto de mar… Desculpa.
- Não faz mal... – Disse João, passando com a mão nos cabelos de Maria, acariciando-os. – Já nos despedimos hoje.
Adeus.
Maria vira o homem da sua vida ir-se embora. Seria para sempre?
Durante a noite, à hora do jantar, Maria, a senhora do mar, não conseguiu esconder a sua consternação no que concerne à partida do seu amado para a marinha.
- O que se passa, minha filha? – Perguntou Dafne, enquanto pousava o tabuleiro do jantar sobre a mesa-de-cabeceira.
- Passa-se tudo e nada… - Respondeu Maria, cabisbaixa. – Esta é a única explicação que encontro no meio de uma miscelânea de preocupações que me atormentam.
Dafne perguntou, docemente:
- O que é esse “tudo”?
- A morte do pai e do meu irmão, o medo do mar, o facto de estares destinada a ficar numa cama, o desemprego… E a juntar a tudo isto, a partida do João para a Marinha.
- O João vai para a Marinha?! Não me tinhas contado. – Disse Dafne, surpresa.
- Ele só mo disse há pouco…
- E quando parte? – Perguntou Dafne, com a sua delicadeza do costume.
- Amanhã. Foi um pouco covarde em me ter contado isto na véspera da sua partida.
- A covardia é muito subjectiva, minha filha. Se não, atenta neste exemplo: Um homem descobre que tem um mês de vida. Com o choque, sabe que o seu destino é a morte e decide suicidar-se. Há, decerto, pessoas que achariam esse acto uma covardia. No entanto, existem outras que achariam precisamente o contrário.
- Sim… Tens razão, mãe.
- Retornando um pouco à nossa conversa… - Continuou Dafne – Explica-me, então, o que é o “nada”.
- O “nada” corresponde ao facto de não se ter passado, pelo menos ainda, coisa alguma com o João.
- E o teu pai e o teu irmão?
- Foi há dez anos. A minha sensação de revolta e desconforto deviam estar já reduzidos a nada.
- É o teu ponto de vista. – Concluiu Dafne, que depois pegou no prato de creme de marisco que estava no tabuleiro.
O tempo passou. Maria não conseguira dormir nessa noite de sofrimento e de dor que lhe rasgavam a alma. Pensava, somente, como seria a sua vida sem o homem que amava.
Nessa madrugada, Maria ficou deitada, às voltas na cama, cotejando o horrível temporal que se fazia sentir na rua com o seu estado de espírito.
Num ímpeto, Maria levantou-se da cama e dirigiu-se à janela. Afastou ou cortinados da cor da sua camisa de dormir e olhou a rua. Amanhecera, mas o sol não marcava presença no céu acinzentado, pois as nuvens encontravam-se a esconder o seu rosto dourado.
- Tenho que rezar à Nossa Senhora da Agonia. – Murmurou Maria, absorta nos seus pensamentos funestos.
A jovem saiu do quarto, de mansinho, pegou nas chaves que estavam pousadas sobre a mesa da cozinha e, depois, saiu de casa. Já na rua, Maria não desviou o seu olhar para o mar traidor e matreiro. Apenas se limitou a seguir o seu caminho até à igreja mais próxima.
A igreja não era colossal, mas estava muito bem conservada por dentro. Os rodapés estavam pintados de um dourado que fazia lembrar ouro, as estatuetas criavam todo um ambiente de calma, paz e harmonia e os púlpitos faziam com que, quem lá entrasse, retrocedesse no tempo até, aproximadamente, ao século XVII, em que os pregadores “semeavam” a palavra de Deus sobre os tais púlpitos nas igrejas da época.
Ao penetrar naquele ambiente divinal, Maria benzeu-se e ajoelhou-se. Rezou.
- Salva-me a mim e ao João, Nossa Senhora da Agonia, da maldade diabólica do mar. Salva-me!
As lágrimas desmaiavam dos olhos da jovem aquando da reza à Nossa Senhora da Agonia.
Quando Maria saiu da igreja, avistou João, que se encaminhava para a Marinha. Interpelou-o.
- João! ... Quero que saibas que… te amo.
O jovem não disse nada, pois o seu olhar falava por ele. E Maria entendeu aquele olhar. Um olhar brilhante e mágico, sincero e sensual.
- Obrigada por existires na minha vida. Porque, ao fim ao cabo, és tu que me fazes viver… És tu que me fazes ser mais humana! Obrigada, meu amor.
Abraçaram-se. Beijaram-se e as lágrimas de ambos uniram-se, aumentando e engrandecendo o amor entre eles.
Depois, João foi-se embora e Maria retornou a sua casa.
Quando Maria fechou a porta de entrada, sentiu que se fechava também um capítulo da sua vida amargurada. Seria para dar início a um novo capítulo? Ou seria o fim da história? O destino dela e de João estava à mercê, no entender da Jovem, do mar.
Nessa noite Maria decidiu passar o que lhe ia no âmago para o papel, pois era uma forma de se sentir um pouco mais aliviada. Escreveu um poema.
Juntos escutamos o inaudível grito
Do mar.
E onda a onda te tocar eu tento
Sob a luz do luar.
Na frescura do essencial à vida e prejudicial elemento
Saboreio os teus beijos que adoramos salgar.
O odor a calma e a cor dos teus olhos sem tormento
Contra os meus medos me fazem lutar.
E eu, por te amar tanto,
Vejo-te partir na esperança de que um dia possas voltar.
Exponho o que sinto:
Nunca vou deixar de te amar.
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